O ano termina e começa com as favelas cariocas nos noticiários. De forma até não tão direta, com algumas interseções e canaletas no meio, mas ainda vítima de alguns deslizes midiáticos. É pano pra manga, com certeza. Algumas notas nossas serão pontuais, outras uma tentativa curta de análise. Um pouco mais cheias de palavras.
Começamos com os noticiários sobre os vinte ataques a ônibus e viaturas policiais no dia 28 de Dezembro de 2006. Canal Bandeirantes, Brasil Urgente e ao vivo. A tragédia consumada e um festival de especulações. Imediatamente a favela forma-se culpada pelo seu braço armado e ilegal: o traficante. Não queremos dizer que não são esses os bandidos ou legitimar qualquer ato desumano, mas o certo é que sejam vistos os fatos antes de se gritar. E a gritaria foi tanta que as especulações se deram em off e com imagens cobertas da favela da Rocinha (por um helicóptero). O locutor, muitos minutos depois do fuzuê, até chegava a um ponto válido, dizendo que possivelmente os ataques seriam uma retaliação ao movimento das milícias, que tomavam as favelas velozmente. No entanto, e aí está um prisma a se discutir, a Rocinha não é ameaçada pela mineira e não esteve envolvida em qualquer ação violenta desde o caso Lulu x Dudu. A bola da vez era a Cidade de Deus, vinte minutos distante da referida comunidade e que sofria a iminencia (até o dado momento em que escrevemos, sofre) de uma invasão por algum movimento armado milicialesco.
Em programas do mesmo dia seguiu-se um comentário geral de moradores do Rio (Zona Sul e Norte abastada) sobre o caos e o terror na cidade. Vimos pouquissimos habitantes de favelas ou do subúrbio.
Pergunta:
- Não é perigosa essa falta de cuidado ao se mostrar as favelas e, além, não seria um perigosa amostragem da homogeinização a que são submetidas no inconsciente do "asfalto" e da mídia
- Onde está esse verdadeiro terror do Rio não é nas casas do Subúrbio e, se for provado o mando de traficantes de morros, nas casas dos próprios favelados.
- Se uma senhora morreu em Botafogo ( e esse senhora era do Complexo do Alemão) e mais de 30 morrem todos os dias do "outro lado" do Rio, o medo deve ser generalizado ou localizado. Estamos realmente todos nós de cara pro terror. Não é papel da mídia deixar isso claro para que essa idéia de caos seja desmistificada, analisada e realmente posta em fatos e números, que seriam: o Rio além da linha do trem é que sofre com a violencia. Não o Rio da praia.
- O medo generalizado, a idéia de desterro e abandono, tendo como o tráfico o carro chefe, tendo como favelas os "focos" de origens e, por seguinte, os favelados como penduricalhos, não é aumentado pela mídia, por essa idéia sem-explicação e vaga de "onda de violencia".
Ao nosso ver, essa violencia que aí está deve ser entendida como um corpo intrinseco ao tecido social falho, corrupto (em diversas esferas ) e desigual da cidade. Não é com raiva ou surpresa que devemos observá-la. É com ações cidadãs cotidianas e uma posição crítica dentro do próprio jornalismo que precisamos combate-la.
As tevês precisam de imagens. O problema é que a sociedade também precisa de um discurso.
