domingo, 10 de dezembro de 2006

Milícia Jornalística

Segundo os últimos dados do IBGE (Censo 2000) existem cerca de 513 favelas no Rio de Janeiro. De acordo com os números publicados no site de O Globo do dia 10/12/2006, cerca de 18% delas, ou seja, 92 favelas, estão dominadas por milícias urbanas ilegais. A mesma matéria diz que o “fenômeno é coordenado por agentes de segurança pública, políticos e líderes comunitários”. Os dados são do relatório do Gabinete Militar da Polícia.

As milícias não são fato novo. Surgiram principalmente nos arredores de Jacarepaguá e Rio das Pedras, zona Oeste da cidade. Por se tratarem de regiões com favelas novas, algumas com um certo desenho urbanístico , a maioria plana, composta por alguns moradores oriundos da classe média, de favelados recém-casados, (com uma faixa etária menor e uma organização familiar diferente das do resto da cidade, como o número de filhos, ocupações , religião etc) e por alguns policiais que moravam em favelas de outras localidades e lá se instalaram simultaneamente e antes do suposto fortalecimento armado do tráfico de drogas. Organizados, se expandiram e prometem um crescimento ainda maior.

Não é nosso papel , no dado momento, dizer se são bons ou ruins. O juízo de valor deve vir depois de um questionamento mínimo dessa realidade. Questionamentos que deveriam aparecer na referida reportagem.

O texto nos municia de argumentos favoráveis às milícias e esconde as críticas em apenas dois e solitários momentos. Ao diagnosticar a situação como “problema” (segundo parágrafo do 1.subtítulo) e na declaração do Coronel Marcos Antonio Amaro “o estado tem que reagir dentro da legalidade, a milícia não”. E só. No mais, a reportagem é quase um tratado e uma desculpa em forma de notícia pela ocupação das favelas por esses grupos armados.

Primeiro precisamos analisar que todas as fontes estão relacionadas ao governo e, principalmente, à chefia dos comandos da segurança da cidade. As declarações fundamentais, por exemplo a que explicam do que se tratam as milícias , vêm do prefeito da cidade e dos chefes de segurança, totalmente atrelados a esses fenômenos. César Maia ainda brinda a matéria denominando tais grupos como Autodefesas Comunitárias (ADCs). Quase uma sigla oficial , avalizada pelo governo , de um movimento ilegal e violento. Por que isso não foi questionado? Por que autodefesa comunitária? De onde vem essa definição? Quem a inventou e por quê? De que comunidade estamos falando? E será ela mesmo que se defende ou pede defesa? E, se pede proteção, pede para um grupo armado que não representa legitimamente o Estado e que não dará garantias constitucionais de proteção?

Respondendo a uma pequena parte dessas perguntas, temos a informação que as milícias só são possíveis com o apoio dos moradores e que elas trazem o fim do tráfico e um esquema de segurança permanente. Essa afirmativa não vem de estudo nem de pesquisa. E sim de uma declaração oficial , no nome do segundo comandante do Bope. Mais uma vez. Não é nosso papel , pelo menos nesse momento, dizer o que é e o que não é o certo nem questionar as palavras da fonte. Mas a declaração de via única se deu como uma verdade em um campo que deveria multidimensioná-la, como o jornalismo. Quem confirma essa informação? Quem a deu não está interessado em que ela seja publicada? Quem poderia contrapor os dados? Se ninguém, por que não deixar explicitado? O jornalista verificou a informação? Acompanhou por um período uma favela governada por uma milícia? Coloca a mão no fogo pelas palavras do comandante? As palavras são regras? Não há variáveis dessa verdade, desse fato?

Seguindo os nossos questionamentos, a reportagem trata de tentar responder às perguntas acima usando o que não consideramos fontes e sim uma mostragem de rotina e obrigatória para elaboração de uma matéria: depoimentos anônimos dos moradores. Nada contra serem anônimos, mas, em si, uma contradição (se esses grupos trazem uma rotina diferente das do tráfico, por que o anonimato? Por que o medo? Se são tão bons, há motivos para a máscara? Os moradores preferiram? Se preferiram, por que esse fato não foi questionado ao ser mostrado? E olha como são colocados: “todos os nomes fictícios(...) acreditam que a presença das milícias diminuem a sensação de insegurança”. Não tanto para revelarem os nomes). São dez moradores de favelas entrevistados. Sete das dez pessoas que disseram por uma comunidade inteira o que ela está sentindo. Se o percentual é pequeno, se não tem representatividade, porque o subtítulo “Moradores apóiam proibição do uso de drogas nas favelas”. Por que afirmar algo que não existe e que não está comprovado por ninguém? Será que não há opinião contrária num campo tão amplo para pesquisa? Se existe o anonimato , por que quem é contra não falaria? E os três que sobraram,o que disseram? Por que o silêncio na matéria?

Seguindo na superficial e presente análise vemos alguns termos voluntários ou ditos de forma tão inconsciente que deixa claro quem é o bandido e o mocinho para os jornalistas. Depois das ADCs, fora de citações ou declarações, temos a definição das milícias como “grupos formados por integrantes das forças de segurança”. É quase o aval para a permanência das milícias. Lendo desapercebido, somos levados a acreditar que são funcionários do governo, plenamente aptos a estarem ali e com prestação em contas com o Estado. A participação ilegal mais uma vez sobre o eufemismo e se transforma em “participação infomal das unidades policiais dessas regiões”. No final, os jornalistas terminam com uma citação da inspetora Marina Magessi, tratando falsamente como “polêmica” um desfecho anunciado em seu início (de que as milícias são um movimento de reação da massa policial que vive em favelas e que não acredita que eles cobrem taxas de proteção e que são os seguranças dos pobres). Vejam, não há polêmica em uma declaração que concorda com todas as declarações da matéria. Não há polêmica numa mostra da realidade unilateral.

Faltaram diversos primas, questionamentos acerca do que foi ouvido, além do que já foi questionado por nós. Qual é a real opinião do prefeito César Maia sobre esse fato? As milícias são grupos armados e, por serem armados sem a permissão do Estado, ilegais. Por que não se investiga os integrantes desses grupos? Quem são eles de verdade? Podem ser policiais corruptos? Podem ser militares corruptos? O que o governo sabe sobre eles? Se afirma com tanta certeza quem são, por que não prestam contas à sociedade? Quem garante que não perpetuarão o tráfico se os policiais militares quase se sustentam do dinheiro do “arrego” dos traficantes? Por que essa legitimação da segurança sem garantias para uma parcela da população? Por que não se fala das taxas cobradas pelas milícias em aluguéis ou por venda de imóveis dentro das favelas? Quem é o representante que fale em nome de todos os moradores das favelas “dominadas” que aprovam esse grupo armado? E quem tem que aprovar ou não, não é o Estado? E a opinião da sociedade em geral? Pra onde foi toda a droga e as armas tomadas de antigos traficantes? Se agora o poder ilegítimo tem o aval do poder legítimo de segurança, como recorrer à legitimidade se houver abuso por parte do primeiro? Quem medirá isso? E quem corrigirá um poder estabelecido com o aval da oficialidade? Não há risco de novas guerras entre milícias e comandos de tráficos? Se a polícia é conhecida por ser corrupta, se ela mata está certa e se isenta de toda a corrupção? Se ele era corrupta na relação com o tráfico deixará de ser tomando o seu lugar no poder de uma favela? Se acabarem os tiros acabarão os problemas sociais e essa relação desigual e guetificada entre os moradores de favelas e a questão da segurança?

Perguntas demais para respostas de menos. Não houve análise. Nem matéria. De um fato tiraram um relatório interessado e colocaram no site. Repetimos que não é nosso papel dizer quem é o bandido ou o mocinho. Mas é nosso dever indicar o que querem que os leitores pensem e que não se mostra uma proximidade nem conhecimento das relações que acontecem nas favelas dominadas por esse grupo. E que esse não é o jornalismo investigativo e isento que tanto pregam existir no referido veículo.

Para ver matéria mais completa e isenta sobre o assunto, embora mais antiga: site Mídia Independente ( http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/03/310699.shtml )