
Uma das primeiras matérias sobre favelas no Brasil. Na verdae, um artigo. Data de 04 de dezembro de 1909, veiculada na Revista Careta, que tinha no humor e nas charges o seu principal caminho editorial para falar de política e fatos do cotidiano.
De acordo com o Jaílson de Souza e Alba Zaluar, trata-se de um "artigo significativo, que marca a estréia do termo favela na imprensa, apresentada como um espelho invertido da civilização e oposta aos anseios por uma cidade moderna, ordenada, civilizada e limpa"
Podemos verificar termos extremamente preconceituosos e , até certo ponto, homofóbicos, como "lugar de facínoras (...) deve ser arrasado para decencia e higiene da Capital Federal". Além disso, torna-se clara uma oposição muitas vezes repetidas por jornalistas até hoje: nós e eles , retratando a exclusão dos favelados da condição de cidadãos da cidade ("Para nós, cariocas, de todos os bairros...").
Extraído do livro Favela - alegria e dor na cidade (Jaílson de Souza e Jorge Luiz Barbosa)
Vale dar uma olhada na transcrição:
Título: O Rio Desconhecido
Sub-Título: A Favella
Para nós, cariocas de todos os bairos, o Rio de Janeiro é o nosso bairro, a Avenida Central, Botafogo e os pontos pittorescos celebrados pela admiração embasbacada dos estrangeiros.
Não suspeitamos que dentro do nosso bairro, qualquer que seja o da nossa residenciam uma cidadesinha pobre e exotica floresce ou vegeta, aninhando em sua escura modestia um vasto turbilhão de ambições humanas.
No coração da cidade, mesmo nas proximidades da Avenida Central, existe esse estranho bairro de Santo Antônio, há pouco tempo descoberto com espanto e vergonha do Rio modernisado.
A Favella é, dos bairros desconhecidos, o mais fallado graças às occurencias que desenroladas alli com frequencia fazem o seu nome figurar nos registros policiaes.
As suas casinholas bizarramente construidas de taboas, de pedaços de caixão, de latas e folhas de zinco dominam um soberbo panorama em meio do qual maravilhosamente avultam o viaducto da Central , a parte da cidade ornada pelas obras do porto e correspondentes avenidas, o Canal do Mangue e as praças e ruas circumvisinhas.
Laboriosamentecontruidas sobre rocha essas casinholas abrigam numerosas familias, operarios, lavandeiras e até faccínoras que são , entre os seus habitantes, os que mais contribuem para a sua escassa nomeada.
Da Favella e bairros congeners têm saído esses famosos e terríveis Prata Preta, Pula Ventana, Chico Pé de Vento e tantos outros heroes das grandes pugnas eleitoraes e dos formidandos conflictos das tabernas.
A polícia , por vezes, exerce a sua vigilância nesses antros, onde raras vezes penetra a hygiene.
Um director da Saúde Pública, o Dr. Oswaldo Cruz, pretendeu arrazar a um desses bairos, mas os seus habitantes desceram, amotinados, para as redacçõea e a imprensa, ou uma parte della, clamou que se queria destruir o azylo dos pobres, deixando-os sem tecto.
No entanto, apezar de possuir elementos honestos, a Favella é um antro de faccínoras e deve ser arrasado para decencia e hygiene da Capital Federal.
