domingo, 25 de março de 2007

ENTREVISTA OBANDO



“A MAQUININHA É A MTV DA FAVELA”


Eles nasceram no subúrbio carioca em meio a um cenário de desigualdade social e violência . Mas reverteram o estigma da derrota e da morte inevitável geralmente proferidas pelo asfalto.Geraram arte. E das boas.


Obando é um dos principais grupos de hip hop em atividade. Oriundos da Favela do Acari , estão há dez anos na estrada, mas só há pouco despontaram no cenário rap. Em 2005 venceram o Premio de Grupo Revelação do Hutuz, maior festival do gênero da América Latina, pelo primeiro disco, Bonança. Entre os motivos de tanto tempo até esse reconhecimento estão as dificuldades em gravar, finalizar e divulgar as canções pra quem enfrenta preconceito de diversas partes. Da mídia ao mercado. No entanto , mesmo aos poucos, essas barreiras estão sendo ultrapassadas.


O segundo disco chama-se “Livrai-me do Mal” e está chegando com força. Algumas faixas já tocam nos bailes hip hop da cidade, rádios comunitárias e nas famosas e numerosas maquininhas de músicas e vídeoclipes. Prova de que o que virá é bom. Fruto de anos de luta e muito talento.
Obando desponta como uma boa alternativa de renovação a um cenário um pouco saturado do estilo. Evolui no som. Evolui nos discursos. Fala da violência policial, do cotidiano nas favelas, de amor, de paz e de superação. São cronistas da cidade e do ser humano, acima de tudo. Rappers que não ficam fazendo só cara de mal nem estilo de gangster de brechó. Produzem, de verdade. Desencavam a cultura dos guetos, soterrada e sub-utlizada pela sociedade dita “formal” . Mostram a cara com riqueza artística. Galdino, Kapony, Mouse e Nehin. É Obando, mane.


Nos dois discos d´Obando vemos um tema central: "Deus e proteção". Os títulos dos álbuns são claros (Bonança e Livrai-me do Mal). Falem um pouco sobre o porquê desse tema ser tão presente na obra de vocês.


Obando: Deus e proteção são indispensáveis na vida das pessoas. Você vê tanta coisa acontecer que isso acaba sendo uma regra. É como diz uma rima do Nehin "Proteção Divina, eu tô em paz / proteção do ser humano se o mal vier voraz". Esse é um assunto presente em nossas vidas, nosso rap é reflexo disso.


Como surgiu a idéia para esse novo disco e como foram as etapas de gravação?

Galdino: Mano, o nome desse disco veio num sonho que eu tive. Não me lembro exatamente. Foi um daqueles sonhos meio confusos. Me lembro que num momento estávamos falando sobre a perda de um amigo. Num outro , em vez de estarmos usando uma camisa preta com a foto do amigo que morreu, a gente tava usando camisas pretas com a frase "Livrai-Me do Mal". Acordei na mesma hora e escrevi a minha estrofe da faixa título do disco (Meu pai, livrai-me do mal / Seja como for olhai por mim até o final / E antes do momento crucial / Que eu veja o traidor abatido pelo próprio punhal). Na noite seguinte a gente foi participar de um evento beneficente na comunidade e eu apresentei a idéia pros companheiros do grupo. Foi unânime, todo mundo fechou firme na mesma hora.


Pude perceber nesse segundo álbum que vocês saíram um pouco de temas mais pesados como violência e morte (apesa de ainda ter) e se voltaram para o cotidiano da vida de vocês, como na música "Maquininha", “Lazer” e "Proposta". O que os motivou a falar desse cotidiano e a escolher temas teoricamente mais "leves"?

Obando: A nossa preocupação sempre foi de registrar os bagulhos o mais fielmente possível. A violência tá presente em uns 70% dos momentos , infelizmente. O resto é lazer. A diferença é que o primeiro disco foi uma questão mais pessoal. Tinha coisa da nossa vida particular que precisávamos registrar. Era nosso primeiro disco. O nome era Bonança. A gente despejou toda as nossas esperanças e angustias naquele disco. Nunca fomos um grupo alienado , daqueles que só falam de morte, tiro e fica choramingando. Só que no primeiro disco a gente não quis botar pra rolo as outras músicas. Achamos que só cabiam aquelas mesmo.

Músicas como “Maquininha” e “Lazer” , que fazem parte desse novo trabalho também falam de coisas do nosso cotidiano. É lazer. Por que o rap não poderia registrar isso? O rap é povo, é o pop verdadeiro e isso faz parte da vida das pessoas que se parecem com a gente. Os lunáticos estão tão preocupados em fazer cara de mal que não percebem isso. A gente sempre vai estar junto do povo. Na saúde e na doença. Nos momentos leves e pesados.


Como foi o trabalho de arranjo das bases. O que vocês privilegiaram musicalmente no disco?

Obando: Geralmente nós fazemos as bases sem aquela pretensão de encaixar em alguma letra. É mais ou menos um hobby. A gente vai acumulando e depois quando surge uma letra nós escolhemos qual delas passa a emoção que a gente quer. Nessa primeira fase não tem muita coisa técnica não. Quando vamos pro estúdio é que começa o lado profissional da coisa. Nesse disco tem participação de vários músicos. Fizemos um som com a Banda Rio Reggae que é lá do Acari, tem participação da Dama Lú do TM Clãn, do DiMetal e outras surpresas. Nós experimentamos bastante nesse disco.


Por que essa participação da Dama Lu? OBandO pensa em gravar com mais mulheres?

Obando: A Lu é uma grande amiga nossa. No inicio nem a conhecíamos pessoalmente. A gente só sabia que tinha que ser a voz dela. O Criolo ( dj do grupo) fez o convite e ela aceitou na boa. Ela fez o trabalho dela como a gente esperava que fizesse. E a música ficou foda. Com certeza vai ter mais participação feminina no nosso trabalho. Inclusive já estamos trabalhando em música nova.

Obando ganhou o premio revelação do Hutuz 2005, maior festival de hip hop da América Latina. Depois disso, o que mudou de reconhecimento no meio do rap? E o que mudou na vida de vocês em geral?

Obando: Visibilidade e reconhecimento. O Hutuz é isso pra um grupo. O Brasil todo pára pra ver. Aí quando anunciam o teu nome lá tudo muda. Logo de cara nós recebemos um convite da Rede Globo pra gravar o Jornal Hoje. Nós estávamos em rede nacional. Na hora do almoço. Todo mundo viu mano, e isso abriu várias portas. O Hutuz trouxe isso pra gente.


É inevitável falar do cenário rap. Gostaria de saber a opinião de vocês sobre isso. Não se vê tanto espaço na mídia para o Hip hop (com raríssimas exceções). Por que vcs acham que isso acontece? Não existem bons grupos de rap no Brasil ? É um som e uma realidade que a mídia desconhece?

Obando: Eles nunca estiveram interessados na questão cultural da coisa. Não é o hip-hop que eles querem. Se você junta gente quer dizer que vc tem voz e isso chama a atenção deles. Aí você tem espaço. E de repente é uma oportunidade de você atingir um numero maior de pessoas. O espaço ta lá. Daí cabe a cada um julgar se vale a pena uma aproximação ou não. Cada grupo tem uma proposta. Não vamos ficar aqui tentando catequizar ninguém. Cada um na sua.
A gente , em particular , procura aproveitar todos os espaços pra levar o nosso rap às pessoas. Seja na mídia oficial ou não. Nós decidimos, por exemplo, pré-lançar esse disco nas máquinas de música da comunidade. Aquilo é a MTV da favela. E tá lá. O povo tá ouvindo. Pro lançamento oficial deve ter umas músicas novas.


O rap precisa ser sempre da periferia?

Obando: O rap não precisa ser nada além de verdadeiro.


Quais são seus projetos para esse disco e para discos futuros?

Obando: Vamos lançar esse disco “Livrai-Me do Mal” ainda nesse primeiro semestre. Temos nosso esquema independente de distribuição pela Fera Entretenimento, mas estamos analisando algumas propostas. O Vídeo da “Lazer” tá quase pronto e estamos trabalhando num dvd. O próximo disco também já está no rascunho. OBandO tá trabalhando. Sempre!

domingo, 18 de março de 2007

Suspeita? Associação? Rocinha?

Falando em Associação dos Moradores. Não sabíamos disso, de repente alguém já publicou alguma coisa, mas merece ficar registrado: imensamente suspeito o William de Oliveira, presidente da Associação da Rocinha. Claro que já foi acusado de envolvimento com tráfico. Isso, para os moradores, não é suspeita. É fato.

Agora o que merece nossa atenção e reflexão é: eu, jornalista, como vou buscar referências sobre uma comunidade com uma pessoa que sequer mora lá? É válido? Enfim, é uma questão.

Só pra constar: além de envolvimento com o tráfico, o senhor William mora em um dos bons e bonitos apartamentos na Barra da Tijuca. E ainda tem gente do Viva Rico que o defende com unas e dentes.

Olhos da Falácia


Como dever ser o relacionamento do jornalista com a associação de moradores de uma favela? Perguntamos isso porque sabemos que o profissional da mídia não tem acesso muitas vezes (e geralmente em situações em que precisa ter) às comunidades. Primeiro porque não conhecem ninguém do local, isso intimamente, no círculo de amizade, nunca visitaram um parente lá. Depois porque falam sobre o que não conhecem. Fato que, entre outros mais subjetivos, cria o famoso ciclo vicioso: os moradores não confiam e não dizem nada com medo de represália e/ou má-interpretação, e ele é obrigado a dar na matéria a versão oficial da polícia, que geralmente é desfavorável aos moradores e à própria favela. Claramente porque o tráfico , nas favelas em que isso existem , não quer ninguém fotografando a atividade lucrativa. E finalmente porque não interessa ao veículo apontar que o cotidiano de uma favela , com exceção do tráfico, é tão comum como de qualquer outro compartimento da cidade. É velho, mas é preciso que tenha morte e cenas rambonianas para dar no JN.

Generalizando, com toda essa história, a associação dos moradores de uma favela funciona como uma assessoria de imprensa do local. É lá que o jornalista vai buscar o enredo, o motivo, a faca e a benção. Se um morador foi suposta vítima de bala perdida, é a associação que vai intermediar o contato com a família (caso não se dê na delegacia ou no cemitério), ela que vai dizer se dá ou não pra entrar (se o tráfico assim desejar ou se pouco se importar), que vai dizer como está o povo com o rebuliço. E, claramente, dar a versão que interessa à comunidade.

De um lado a verdade da polícia (raramente se trata da versão do governo e sim do braço que interfere no dia-a-dia de uma comunidade: o armado), do outro a da Associação. Não queremos estabelecer nada aqui. Dizer quem é certo ou errado. Não estamos dizendo que o jornalista é incompetente por não ser um flaneur da comunidade. Estamos afirmando que o jornalismo o é. O abismo social se refleto no abismo do ofício. Se a mídia, integrada, não entrar nas favelas, ficará sempre esse corre-corre falso e desinteressado de versões. Ficarão sempre os estigmas repetidos. Ora coitados, ora rebeldes, ora merecedores da realidade violenta. Ficarão os fatos e não os motivos mais profundos. Ficará a desconfiança e o desuso prático da profissão. O que era para ser o “olho da sociedade” se torna o espaço alternado e interessado de segmentos dela, de onde nenhuma conclusão nasce. Um ponto cego.

sábado, 3 de março de 2007

Anti-Semitismo e racismo por judeus

Não é um assunto que tenha diretamente a ver com favelas, mas está no quadro amplo das desigualdades sociais e humanas: o preconceito étnico. E de pessoas que, teoricamente, são de um mesmo povo.

Digo "teoricamente" por pobreza textual e semântica. Um grande amigo meu, ainda maior jornalista, que cobriu os conturbados acontecimentos em Israel ano passado (2006) me contou sobre uma incipiente rivalidade e ódio de dois grupos de judeus: os russos e os etíopes.

Primeiro preciso dizer que me espantei. Sempre considerei (e considero) o povo mais unido do mundo. Com toda sua política de repatriação do povo hebraico espalhado pelo mundo em Israel, com seus ideais e doutrinas parecidos mesmo a léguas de distância, enfim, com um sentimento de unidade que não vejo nos negros (pergunta quantos negros no Brasil falam Yorubá!), nem nos brasileiros (alguns nem falam português ou preferem falar o idioma do bush).

Depois tenho que dizer que "dois grupos" também não é o melhor termo. E essa tal rivalidade tem um porquê. Aliás, não tem. Vou tentar explicar.

Um judeu é reconhecido judeu por Israel até a a terceira geração. Ou seja: avô-neto. Acontece que nem todo neto praticou ou pratica a religião. No entanto, de acordo com uma lei estabelecida pelo governo hebraico, há o reconhecimento e abrigo da mesma maneira. Então, com toda a precariedade vivida no país, muitos russos vêem Israel como uma oportunidade boa de entrar num ambiente primeiro-mundista. E, os que têm descendecia hebraica, lá se vão. Os russos, de acordo com esse meu amigo, vêm com um grau de instrução baixo, com um grau de álcoolismo alto , violentos e extremamente preconceituosos.

Do outro lado do ringue, os etíopes, descendentes da Rainha de Sabá com o Rei Davi, judeus muito mais praticantes, com um bom grau de ortodoxismo e pacíficos. Em linguagem simples: os russos brancos vêem os negros africanos e praticam atos dignos de hooligans, skinheads e kkks da vida. É o mesmo ódio infundado que vimos durante os séculos. O mesmo exercido contra os próprios judeus durante a história e mais notadamente na segunda guerra.

"Só como exemplo, um dia estava voltando para o centro em que morava e vi russos de carro tentando atropelar os etíopes que voltavam a pé pra casa. Eles queria matar mesmo" - diz esse meu amigo.

E o pior é que o Governo de Israel fica em uma sinuca de bico de dar dó. Não pode expulsar os russos porque se trata de umas leis básicas da unidade do povo. E o que vai fazer com cerca de 01 milhão (de um total de 06 milhões que vivem lá) de pessoas racistas? E eles não páram de chegar. E os etíopes não páram de chegar. E a pólvora amontoa. E o fogo se espalha. Uma hora, breve, a coisa vai feder.

É uma pena que atitudes assim se repitam. Pior, que alguns descendentes que não respeitam a história de um povo que sofreu tanto para estar junto e criar seu Estado, levem esse sentimento odioso pra frente. Em um momento tão conturbado, com ameaça de invasão do Irã, ataques crescentes, tudo o que Israel não precisa é um elo fraco e nocivo na própria corrente.

Grupo Heterogêneo

Uma informação interessante , velha, mas interessante, sobre as milícias em favelas cariocas. Algumas pessoas da mídia ainda estão com a imagem cristalizada de que esses grupos ilegais armados são formados apenas por bombeiros, policiais, ex-militares etc.

É importante notar que já há participação de alguns jovens de favelas em geral, até por ex-traficantes. Isso é fato conhecido nas comunidades. Alguns chegam a receber R$ 250,00 por semana para ficar com uma arma na mão e um radinho para avisar sobre o movimento suspeito. Até trabalham em empregos formais em outro período do dia. Torna-se um bico. Tem-se notícias de playboys que vão se aventurar também nas milícias.

Algumas mineiras lucram com a extorsão dos moradores mais do que ganhariam com o tráfico de drogas. Será que começa a valer uma nova forma de comércio, com o aval do silêncio da Asfalto´s Society?

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Moradores do Alemão vítimas de violência

http://www.observatoriodefavelas.org.br/observatorio/noticias/noticias/4433.asp

Moradores do Complexo do Alemão são vítimas de violência


Em Nota Pública emitida no dia 15 de fevereiro de 2007, organizações sociais e de direitos humanos solicitam audiência com o Secretário de Segurança Pública e com o Comandante Geral da Polícia Militar para discutir a operação realizada pela operação conjunta das forças policiais no Complexo do Alemão e apresentar denúncias de violações dos direitos humanos. A ocupação se deu entre os dias 13 e 15 de fevereiro de 2007. Abaixo leia a Nota na íntegra, e as instituições que a assinam.
Moradores do Complexo do Alemão são vítimas de violência e arbitrariedade durante operação conjunta de forças policiais

A primeira operação conjunta da Força Nacional, BOPE e CORE realizada em Comunidades, em curso no Complexo do Alemão desde a última terça-feira [13 de fevereiro e se estendeu até o dia 15 de fevereiro], tem contrariado o compromisso firmado entre governo estadual e federal em adotar uma nova política de segurança pública.

Como em momentos anteriores, a atual operação policial tem violado os direitos dos moradores que estão impedidos de trabalhar, freqüentar a escola, entrar ou deixar a comunidade e, mais grave ainda, são vítimas de “balas perdidas” ou de execuções sumárias praticadas por policiais.
A ocupação ostensiva da comunidade por essas forças policiais acontece nos mesmos moldes violentos do governo anterior, com a entrada da polícia abrindo fogo contra moradores, residências e estabelecimentos comerciais, destruindo os transformadores de energia elétrica, deixando a população sem luz e telefone, com clara intenção de intimidar, acuar e deixá-los isolados.

Ao reeditar ações policiais como a em curso no Complexo do Alemão, os governos estadual e federal abrem mão da proposta de ação pautada em investigações sérias e de inteligência apresentadas durante o anúncio da cooperação na área de segurança pública. O que podemos verificar é a continuidade da política de combate à criminalidade centrada no enfrentamento armado que tem como critério de eficiência a letalidade e que põem em risco e viola direitos dos moradores das comunidades.

Décadas de policiamento violento e repressivo baseado em violações de direitos humanos não tem incidido na redução da criminalidade ou na diminuição dos homicídios, especialmente nas comunidades. Nesse sentido, as organizações sociais e de direitos humanos que assinam essa nota e moradores do Complexo do Alemão, estão solicitando uma audiência com o Secretário de Segurança Pública e com o Comandante Geral da Polícia Militar para discutir a operação em curso [terminada no dia 15 de fevereiro de 2007] na comunidade e apresentar denúncias de violações.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Maestro Brasileiro


Alguns jornalistas o conhecem. Aliás, seu nome rodou na boca da classe intelectual da mesma forma que talentos genuínos vindos de favelas brasileiras em outros tempos: uma curiosidade, a pérola na lama, a arte específica do pobre. Foi quando participou do filme O Invasor, de Beto Brant. É um rapper, mas antes de tudo um gênio. Trata-se do mano Sabotage, maestro do Canão, lá de São Paulo.


Gênio é uma definição nossa. O que vale atentarmos é que, usando-a (e até algumas pessoas da mídia a utilizam), afastamos dela o que sabem sobre e o quanto consideram Sabotage. Em linguagem simples: não dão valor ao homem.


Ao nosso ver, o jornalismo não considera o hip hop nacional um gênero digno de se chamar "gênero". Ainda é "algo". Feito "lá". Mv Bill e Racionais podem ser encontrados na sessão pop rock nacional, por exemplo. E não é música pobre, música de pobre, uma brincadeira de pobres. Não. Uma prova disso é o próprio Sabotage.


Sua obra é universal e ao mesmo tempo só poderia ser feita por ele. Usa palavras sem sentido com um nexo que só os especiais fazem. Interpreta a própria voz. Mudou a visão sobre um estilo musical Criou formas de entonação de rap. É grande. E não é pela morte. Sempre foi, mesmo vivo. Assassinado, não deveria ser tratado como bandido e sim com uma perda irremediável pra música brasileira. Sim, era um músico. Um culto. Um intelectual do mundo. Refinado. Tanto que só daqui a pouco vão aprender seu idioma.


Isso tudo é pra falar que ele está de volta. De acordo com texto de Marcos Zibordi, da ótima exceção jornalística "Caros Amigos", um disco de inéditas será lançado esse ano. Quem produz é Ganja (de tantos outros raps), no Atelierstúdio (uma base criativa e revolucionária do gênero).


Segue reprodução de parte do artigo. É fundamental esperarmos. É fundamental a mídia reconhecer esse talento, redefinir o que sabe sobre rap. E esperar também. Mesmo tão depois de sua morte. Mesmo tão distante de seu mundo, jão.


"A premissa básica da produção desse disco é que ninguém vai ganhar nada. A renda vai pros filhos do Sabotage, esse patrimônio é deles. Eu (Ganja) , o Tejo (Damasceno) e o Zé (Gonzales) a gente chegou ao consenso de que pegaria algumas gravações à capela do primeiro disco, daria na mão de algumas pessoas pra fazerem remixes. Aí juntaríamos com essas músicas que a gent tem, inéditas, umas seis, sete no máximo, do segundo disco. A gente deu para algumas pessoas que tiveram participação importante no trabalho do cara, e que seria justo estarem numa homenagem póstuma , como o Dj Cia. A gente espalhou as músicas pra todo mundo participar"


Dá pra imaginar a febre que causará um disco com inéditas de Sabotage. Ao caro leitor afoito, algumas das prováveis músicas, títulos e mesmo o nome do disco, que poderá ser O Retorno, comentados em seguida, podem mudar até o lançamento. "AC DC da Prisão" começa com um diálogo que ervela a visita frustrada do sobrinho de Sabotage ao extinto presídio do Carandiru. O tio está no castigo, mas deixa "uma paradinha escrita" que rende quase dez minutos de rima sobre a vida na prisão, os criminosos famosos, os pavilhões, o pagode no pátio. "O Gatilho", de pouco mais de seis minutos, tem sutil levada de violão. Você ouvirá na rouca voz milenar de Sabotage rimas estilhaçantes como "rancoroso , se vai ele traz muito , ele é piolho, sem dar pipoco / no sapatinho, inimigo tenebroso, bicho solto / pra que todos não achem pouco / se alguém aprende , ele ensina, ele é o oposto".


Metade da música trata dos sonhos e ilusões das meninas na favela. "País da Fome 2" Sabotage cantou em alguns shows. Pesada e tensa, a letra relembra dos amigos, irmãos e mãe mortos, e a base musical remete ao característico apito do aparelhinho de UTI.