
“A MAQUININHA É A MTV DA FAVELA”
Eles nasceram no subúrbio carioca em meio a um cenário de desigualdade social e violência . Mas reverteram o estigma da derrota e da morte inevitável geralmente proferidas pelo asfalto.Geraram arte. E das boas.
Obando é um dos principais grupos de hip hop em atividade. Oriundos da Favela do Acari , estão há dez anos na estrada, mas só há pouco despontaram no cenário rap. Em 2005 venceram o Premio de Grupo Revelação do Hutuz, maior festival do gênero da América Latina, pelo primeiro disco, Bonança. Entre os motivos de tanto tempo até esse reconhecimento estão as dificuldades em gravar, finalizar e divulgar as canções pra quem enfrenta preconceito de diversas partes. Da mídia ao mercado. No entanto , mesmo aos poucos, essas barreiras estão sendo ultrapassadas.
O segundo disco chama-se “Livrai-me do Mal” e está chegando com força. Algumas faixas já tocam nos bailes hip hop da cidade, rádios comunitárias e nas famosas e numerosas maquininhas de músicas e vídeoclipes. Prova de que o que virá é bom. Fruto de anos de luta e muito talento.
Obando desponta como uma boa alternativa de renovação a um cenário um pouco saturado do estilo. Evolui no som. Evolui nos discursos. Fala da violência policial, do cotidiano nas favelas, de amor, de paz e de superação. São cronistas da cidade e do ser humano, acima de tudo. Rappers que não ficam fazendo só cara de mal nem estilo de gangster de brechó. Produzem, de verdade. Desencavam a cultura dos guetos, soterrada e sub-utlizada pela sociedade dita “formal” . Mostram a cara com riqueza artística. Galdino, Kapony, Mouse e Nehin. É Obando, mane.
Nos dois discos d´Obando vemos um tema central: "Deus e proteção". Os títulos dos álbuns são claros (Bonança e Livrai-me do Mal). Falem um pouco sobre o porquê desse tema ser tão presente na obra de vocês.
Obando desponta como uma boa alternativa de renovação a um cenário um pouco saturado do estilo. Evolui no som. Evolui nos discursos. Fala da violência policial, do cotidiano nas favelas, de amor, de paz e de superação. São cronistas da cidade e do ser humano, acima de tudo. Rappers que não ficam fazendo só cara de mal nem estilo de gangster de brechó. Produzem, de verdade. Desencavam a cultura dos guetos, soterrada e sub-utlizada pela sociedade dita “formal” . Mostram a cara com riqueza artística. Galdino, Kapony, Mouse e Nehin. É Obando, mane.
Nos dois discos d´Obando vemos um tema central: "Deus e proteção". Os títulos dos álbuns são claros (Bonança e Livrai-me do Mal). Falem um pouco sobre o porquê desse tema ser tão presente na obra de vocês.
Obando: Deus e proteção são indispensáveis na vida das pessoas. Você vê tanta coisa acontecer que isso acaba sendo uma regra. É como diz uma rima do Nehin "Proteção Divina, eu tô em paz / proteção do ser humano se o mal vier voraz". Esse é um assunto presente em nossas vidas, nosso rap é reflexo disso.
Como surgiu a idéia para esse novo disco e como foram as etapas de gravação?
Galdino: Mano, o nome desse disco veio num sonho que eu tive. Não me lembro exatamente. Foi um daqueles sonhos meio confusos. Me lembro que num momento estávamos falando sobre a perda de um amigo. Num outro , em vez de estarmos usando uma camisa preta com a foto do amigo que morreu, a gente tava usando camisas pretas com a frase "Livrai-Me do Mal". Acordei na mesma hora e escrevi a minha estrofe da faixa título do disco (Meu pai, livrai-me do mal / Seja como for olhai por mim até o final / E antes do momento crucial / Que eu veja o traidor abatido pelo próprio punhal). Na noite seguinte a gente foi participar de um evento beneficente na comunidade e eu apresentei a idéia pros companheiros do grupo. Foi unânime, todo mundo fechou firme na mesma hora.
Pude perceber nesse segundo álbum que vocês saíram um pouco de temas mais pesados como violência e morte (apesa de ainda ter) e se voltaram para o cotidiano da vida de vocês, como na música "Maquininha", “Lazer” e "Proposta". O que os motivou a falar desse cotidiano e a escolher temas teoricamente mais "leves"?
Obando: A nossa preocupação sempre foi de registrar os bagulhos o mais fielmente possível. A violência tá presente em uns 70% dos momentos , infelizmente. O resto é lazer. A diferença é que o primeiro disco foi uma questão mais pessoal. Tinha coisa da nossa vida particular que precisávamos registrar. Era nosso primeiro disco. O nome era Bonança. A gente despejou toda as nossas esperanças e angustias naquele disco. Nunca fomos um grupo alienado , daqueles que só falam de morte, tiro e fica choramingando. Só que no primeiro disco a gente não quis botar pra rolo as outras músicas. Achamos que só cabiam aquelas mesmo.
Músicas como “Maquininha” e “Lazer” , que fazem parte desse novo trabalho também falam de coisas do nosso cotidiano. É lazer. Por que o rap não poderia registrar isso? O rap é povo, é o pop verdadeiro e isso faz parte da vida das pessoas que se parecem com a gente. Os lunáticos estão tão preocupados em fazer cara de mal que não percebem isso. A gente sempre vai estar junto do povo. Na saúde e na doença. Nos momentos leves e pesados.
Como foi o trabalho de arranjo das bases. O que vocês privilegiaram musicalmente no disco?
Obando: Geralmente nós fazemos as bases sem aquela pretensão de encaixar em alguma letra. É mais ou menos um hobby. A gente vai acumulando e depois quando surge uma letra nós escolhemos qual delas passa a emoção que a gente quer. Nessa primeira fase não tem muita coisa técnica não. Quando vamos pro estúdio é que começa o lado profissional da coisa. Nesse disco tem participação de vários músicos. Fizemos um som com a Banda Rio Reggae que é lá do Acari, tem participação da Dama Lú do TM Clãn, do DiMetal e outras surpresas. Nós experimentamos bastante nesse disco.
Por que essa participação da Dama Lu? OBandO pensa em gravar com mais mulheres?
Obando: A Lu é uma grande amiga nossa. No inicio nem a conhecíamos pessoalmente. A gente só sabia que tinha que ser a voz dela. O Criolo ( dj do grupo) fez o convite e ela aceitou na boa. Ela fez o trabalho dela como a gente esperava que fizesse. E a música ficou foda. Com certeza vai ter mais participação feminina no nosso trabalho. Inclusive já estamos trabalhando em música nova.
Obando ganhou o premio revelação do Hutuz 2005, maior festival de hip hop da América Latina. Depois disso, o que mudou de reconhecimento no meio do rap? E o que mudou na vida de vocês em geral?
Obando: Visibilidade e reconhecimento. O Hutuz é isso pra um grupo. O Brasil todo pára pra ver. Aí quando anunciam o teu nome lá tudo muda. Logo de cara nós recebemos um convite da Rede Globo pra gravar o Jornal Hoje. Nós estávamos em rede nacional. Na hora do almoço. Todo mundo viu mano, e isso abriu várias portas. O Hutuz trouxe isso pra gente.
É inevitável falar do cenário rap. Gostaria de saber a opinião de vocês sobre isso. Não se vê tanto espaço na mídia para o Hip hop (com raríssimas exceções). Por que vcs acham que isso acontece? Não existem bons grupos de rap no Brasil ? É um som e uma realidade que a mídia desconhece?
Obando: Eles nunca estiveram interessados na questão cultural da coisa. Não é o hip-hop que eles querem. Se você junta gente quer dizer que vc tem voz e isso chama a atenção deles. Aí você tem espaço. E de repente é uma oportunidade de você atingir um numero maior de pessoas. O espaço ta lá. Daí cabe a cada um julgar se vale a pena uma aproximação ou não. Cada grupo tem uma proposta. Não vamos ficar aqui tentando catequizar ninguém. Cada um na sua.
A gente , em particular , procura aproveitar todos os espaços pra levar o nosso rap às pessoas. Seja na mídia oficial ou não. Nós decidimos, por exemplo, pré-lançar esse disco nas máquinas de música da comunidade. Aquilo é a MTV da favela. E tá lá. O povo tá ouvindo. Pro lançamento oficial deve ter umas músicas novas.
O rap precisa ser sempre da periferia?
Obando: O rap não precisa ser nada além de verdadeiro.
Quais são seus projetos para esse disco e para discos futuros?
Obando: Vamos lançar esse disco “Livrai-Me do Mal” ainda nesse primeiro semestre. Temos nosso esquema independente de distribuição pela Fera Entretenimento, mas estamos analisando algumas propostas. O Vídeo da “Lazer” tá quase pronto e estamos trabalhando num dvd. O próximo disco também já está no rascunho. OBandO tá trabalhando. Sempre!


